terça-feira, 10 de abril de 2018

Entrevista a Mário Valente - Parte 2

Conseguimos falar com Mário Valente, uma figura de referência no panorama nacional da informática, um empreendedor com uma longa carreira, já com vários projetos ligados à área dos videojogos.

Começou a programar jogos e a fazer música no Spectrum e Commodore 64, fez a música do jogo Kraal para Spectrum que saiu em 1990 pela Hewson Consultants (produzido por Rui Tito), foi um dos pioneiros na introdução da internet em Portugal criando o primeiro ISP português - o Esotérica, foi responsável pela modernização administrativa do Ministério da Justiça, produtor executivo do remake do Deus Ex Machina e mais recentemente um dos fundadores da primeira associação portuguesa dedicada a bitcoins e à blockchain, entre muitas outras coisas.

Tal como muitos outros, teve como principal motivação para a escolha da sua área profissional o Zx Spectrum e os seus videojogos. Por isso, passámos algum tempo com ele e pudemos saber um pouco mais sobre as suas origens, o seu trabalho na área e algumas histórias interessantes que merecem com toda a certeza ser preservadas para a posteridade.

Esta será a segunda parte da entrevista, (podem ver a primeira aqui) dedicada aos primórdios da internet em Portugal, seguindo-se outra dedicada ao remake do Deus Ex Machina e ao Spectrum Next.

A Internet

Em ’86, talvez ou ’87 compro um modem, porque começam a aparecer as primeiras BBS em Portugal. Na altura usava-o no Commodore 64, não no Spectrum, nunca cheguei a usar muito no Spectrum por uma razão: a maioria das BBS era em PC, eram em DOS e tinham 80 caracteres por linha, assim como o Unix tinha originalmente, e o Spectrum só tinha 40 caracteres por linha, portanto era uma grande porcaria aceder às BBS com Spectrum porque as letras ficavam minúsculas, distorcidas era uma confusão pegada.

[Havia BBS a ser geridas por Spectrum], mas poucas, o grande grosso das BBS aparece em DOS, em Amiga, aparece em Atari ST, também. Em Spectrum, pouco, porque [este] não tem grandes capacidades de input-output e portanto não conseguia suportar muitos telefones ligados simultaneamente, coisa que conseguias fazer com outras máquinas e sistemas operativos.

(Intro de um jogo para Commodore Amiga publicitando várias BBS)

Portanto, eu compro um modem (…) de 1200kbps para começar a aceder às BBS onde um gajo ia sacar software à borla. Tanto software que depois se veio a chamar open-source, o shareware como o software pirateado. É também aí que eu começo a minha carreira de “pirata” porque um gajo para ligar para as BBS nos Estados Unidos, os períodos telefónicos eram uma barbaridade, uma fortuna e então nós começámos a arranjar sítios aqui em Portugal para onde nós conseguíamos ligar com uma chamada local e depois conseguíamos ligar desses sítios para os Estados Unidos e esses é que pagavam as contas telefónicas.

Estamos a falar de organismos públicos, da TAP, de bancos, portanto nós acedíamos aos computadores deles apenas com o intuito de depois discar o telefone para os Estados Unidos e aceder às BBS aí. Estamos a falar de 86/87/88.

Eu estava ligado à rede mundial de BBS que se chamava Fidonet e começo a perceber que existem outras redes. Existe uma rede europeia chamada URN, existe uma chamada Bitnet, existe uma rede americana chamada Arpanet que lhes estavam a começar a chamar Internet.

 (Logotipo da FidoNet, tal como aparecia na época ao utilizadores de PC)

Descubro que para além das mensagens de mail do Fido que se conseguia enviar entre BBS. As Universidades nos Estados Unidos usavam uma coisa chamada e-mail, usavam um símbolo que era a arroba e um gajo não sabia para que é que aquilo servia, nem  vinha nos teclados portugueses originais. Eu começo a tentar perceber, como é que isto está tudo ligado, como é se acede a esta coisa da rede Bitnet, da URN?

Depois ligava daqui em chamada local para a TAP, depois nos computadores da TAP discava para as BBS nos Estados Unidos e conseguia sair e trocar mensagens de e-mail com tipos nas universidades Norte-americanas. Começo a perceber que existe ali um outro mundo à parte, ainda não existia World Wide Web. Começo a perceber que se consegue aceder a servidores FTP nos Estados Unidos, mas que na europa não se consegue, a Europa não está ligada à rede Norte-Americana - a Arpanet. Mas conseguem-se enviar e-mail para alguns servidores de FTP que enviam o ficheiro por e-mail para ti.

Percurso profissional
 
Quando chego aos 18/19 na altura de entrar para a Universidade em ’86, decidi ir para informática, na altura na Universidade de Lisboa, especificamente, não escolhi o Técnico nem a Nova que eram mais populares na altura para essa área.

Escolhi o que era na altura o curso de Matemática Aplicada, ramo de computação, que depois foi transformado em Informática.

Escolhi porque era o único curso que tinha uma cadeira de computação gráfica, onde se falava de jogos. Aqui começo a usar mais PCs, sistemas Unix, começo a interessar-me mais por redes, por internet.

Depois da universidade vou estagiar no LNEC, eles lá têm acesso total à internet. Estamos a falar de ‘91/’92. Eu já consigo aceder aos servidores de FTP e consigo aceder a ficheiros diretamente, eu já consigo fazer Telnet a BBS’s nos Estados Unidos.

Fui para o LNEC fazer um trabalho de estágio final sobre Sistemas Multimédia e Hipertexto. Como é normal nos trabalhos científicos, académicos, tenho de o comparar com outros sistemas de Multimédia e Hipertexto. Comparo com uma série de outros sistemas que existem na altura, entre os quais, um que tinha acabado de aparecer numa Universidade Norte-Americana que se chamava HTML.

 (Mosaic - o primeiro navegador a ser usado em Windows e aquele que popularizou a World Wide Web)

Descubro entre outros o Mosaic, a World Wide Web do Tim Berners-Lee, o HTML e eu em ‘92/’93, percebo que aquilo é o futuro, que a internet vai ser o futuro. A internet começa a ser comercializada nos Estados Unidos, porque até aí é [era] apenas académico. Eu percebo em ’92 que há ali uma oportunidade de negócio que de é fazer o mesmo na Europa e em Portugal e de vender acesso à Internet.

Como já tinha um modem, comprei mais dois ou três modems, mais duas ou três linhas telefónicas e montei uma BBS em Linux que dava acesso à Internet. Foi assim que começou a Esotérica, basicamente.

Depois apareceu a Telepac, a malta do INESC criou a Ipglobal, mas em ‘91/’92/’93 não havia nada, literalmente. Repara eu troquei mensagens com o Marc Andreeson, com o gajo que criou o Mosaic e o Netscape, troquei mensagens de e-mail com ele sobre como é que devia ser o HTML, se devia haver a tag image ou não, se devia haver o tag de link ou não. Com o Tim Berners-Lee nunca aconteceu, mas com o Marc Andreesen troquei mensagens em ‘91/’92.

Agradecemos mais uma vez que nos tenham acompanhado nesta "viagem" pela história inicial da internet, e esperamos que fiquem atentos à última parte de entrevista a publicar na próxima semana.

Sem comentários:

Enviar um comentário